A colombiana Sara Calle veio para o Brasil se especializar em Ecologia, sua primeira área de formação. Sabia que viver em um novo país seria uma mudança profunda, mas não imaginava descobrir aqui uma nova profissão e a paixão por empreender. Saiba mais sobre a designer de jóias que usa coragem e intuição tanto para criar quanto para definir seus próprios rumos.

Como você começou a fazer jóias?

Sou formada em Ecologia e fiz pós graduação na área. Então, em 2013 vim para o Brasil  pensando em fazer mestrado e trabalhar como ecóloga por aqui. Enquanto esperava a revalidação do meu diploma e o resultado de algumas entrevistas, comecei a fazer cursos livres de técnicas artísticas diversas. Não demorou e conheci a ourivesaria.

Então você veio para o Brasil pensando em exercer a profissão que já tinha?

Sim, eu vim pensando em uma coisa e em um ano aqui minha vida tinha mudado completamente. Eu fiquei apaixonada pela ourivesaria e até hoje é assim: é algo que posso fazer por horas e não parece trabalho pra mim. É isso que você tem que sentir por algo de que goste: que você pode fazer o dia todo, todos os dias e ainda tem prazer em fazer.

Foi seu primeiro contato com as artes manuais?

Na verdade, não. Minha mãe é pintora e sempre me incentivou a desenvolver um relacionamento com as artes. O que aconteceu, na verdade, é que de certa forma eu retomei esse contato, que vem da minha infância.

Como foi o percurso entre descobrir esta nova paixão e ter uma marca de jóias que leva seu nome?

Fui me especializando e trabalhei também como aprendiz em ateliers e lojas de design. Paralelamente, fui fazendo coleções pequenas e vendendo em feiras e espaços compartilhados. Há mais ou menos um ano trabalho apenas para a minha marca. Neste tempo todo, além de investir em novos cursos, estudo marketing, técnicas de vendas e busco me aprimorar no português. Gosto disso de ter que ser interdisciplinar para empreender. Isso também sempre foi muito a minha cara: gosto de ecologia, arte, história…. Adoro misturar.

Foi difícil tomar a decisão de deixar um emprego fixo para seguir com seu projeto de marca?

Foi uma decisão planejada. Fiz uma poupança, me arrisquei na minha primeira coleção e a coisa foi acontecendo. Quando decidi sair, me ofereceram até uma gerência na loja. Sem dúvida, você fica se questionando se vale a pena se arriscar. Mas acho que qualquer coisa que vem do coração a gente tem que ir atrás.

Qual o conceito dos seus produtos? Que materiais você usa?

Trabalho com prata por ser um metal nobre muito versátil, maleável, que permite vários acabamentos e muita liberdade criativa. Não tenho coleções específicas, inspiradas nisso ou naquilo. Meu processo criativo é muito livre, gosto de criar com formas leves e atemporais, sejam geométricas ou presentes na natureza, como círculos, folhas. Algo que sempre dê pra usar, que seja perene.

O que é o mais gostoso em empreender seu próprio negócio e quais os maiores desafios?

A maior delícia e o maior desafio, para mim, é ter controle do seu horário e do seu tempo: você pode ir à praia num dia lindo, decidir ficar em casa, não tem horários a cumprir. O processo de criar precisa desse tempo, dessa liberdade. Isso te dá forças para continuar, te inspira a criar coisas novas. Por outro lado, também tem que ter disciplina, se planejar e pôr metas. Minha meta, por exemplo, é fazer uma peça diária.

E o Brasil? Que espaço ele tem nos seus planos?

Desde que cheguei ao Brasil, eu me senti tão bem que sabia que não iria embora. Eu vim pra ficar. Tenho muito a aprender com o design brasileiro. Acho muito interessante os movimentos que acontecem aqui. Se eu tivesse ficado na Colômbia, acho que não teria me encontrado. Seria uma ecóloga de sucesso e tal, mas teria aquela sensação de “eu quis, mas não fiz”. Mas a Ecologia ainda está em mim, ainda é uma paixão. Estou me estruturando e sei que um dia vou unir meu trabalho com jóias a ela de alguma forma.