Calcinha e sutião de renda pretos da marca Namah, que faz lingeries e roupas e tem foco na responsabilidade social e na sustentabilidade
Lingerie da Namah, que faz moda com foco na responsabilidade social e na sustentabilidade

A fotógrafa Maria Navarro decidiu estudar Moda apenas pela afinidade com as disciplinas de Artes presentes na grade, mas logo percebeu ali um potencial de transformação social. Entre o gosto pela pesquisa para criação de coleções e o desejo de impactar positivamente a sociedade, criou a Namah, marca de lingeries e roupas que têm a responsabilidade social e ambiental na sua essência. Tudo na produção é pensado: a qualidade dos materiais, seu aproveitamento e descarte, bem como a remuneração e qualidade do ambiente de quem trabalha para ela. O sonho está só começando a se concretizar, mas a passos firmes: “minha intenção é que a Namah seja uma usina transformadora”.

Qual era sua ocupação antes da Namah?

Sou fotógrafa e estudante de Design de Moda. Conheci a fotografia em Belém, onde morava. Luiz Braga, um fotógrafo brasileiro bem conhecido, me viu na rua e pediu para me fotografar. Neguei, mas aceitei conhecer seu estúdio e trabalho e ali entendide imediatamente que era aquilo o que queria fazer da vida. Faço fotografia aérea, de moda, retratos, de produtos (still) e gastronomia.

Há alguns anos, decidi estudar Arte, mas a faculdade era distante e com horários difíceis de conciliar. Acabei optando pelo Design de Moda, pois tem muitas matérias afins com a Arte, era mais próximo e o horário, mais flexível. É curioso, porque apesar de trabalhar também com fotografia de moda, tinha incômodos em relação à área, que achava meio fútil. Mas, na faculdade, eu descobri que a Moda é uma ferramenta de inclusão e transformação social. Isso fez com que eu me engajasse em desenvolver roupas. Também gosto da parte criativa, da pesquisa e imersão nos assuntos.

Pode nos contar a história da sua marca?

Comecei a desenvolver as primeiras peças na faculdade, em aula, e resolvi aproveitar o novo conhecimento de forma rentável. Fiz algumas unidades e vendi rapidamente. Junto com a euforia de vender também veio uma tristeza: puxa, vendi tudo… mais gente consumindo, mais lingerie no mundo… desde o começo pesa muito pra mim a questão da sustentabilidade. Por essas e outra preocupações, a Namah foi muito pensada mesmo antes de eu começar a produzir. Fiz todos os rituais burocráticos, desenvolvi um conceito, detalhes como cabides, embalagem. Passei pelo processo de pensar o nome e seu conceito. Depois daquela primeira experiência com as peças desenvolvidas em aula, investi numa segunda coleção, mas toda a produção, incluindo croquis e moldes, foi perdida num assalto ao caminhão dos Correios que trazia as peças de Friburgo, onde foram produzidas. Foi um baque, desanimei, mas não desisti. Agora estou na minha terceira coleção, que além de lingerie tem peças de roupa mesmo.

De onde veio o nome?

O nome vem do mantra “Om Namah Shivaia”. A palavra Namah tem vários significados. Um dos significados principais é “eu saúdo o melhor que você tem” e o que eu mais associo à marca é “a alma que se move pelo mundo”.

E como você faz para conciliar o crescimento da marca com a sustentabilidade?

Minha intenção é a de que a Namah seja uma usina transformadora. Acho que toda marca que nasce hoje tem que pensar no social, tem que pensar na sustentabilidade. Não é nem uma obrigação, o DNA da marca tem que ter esses dois pilares. Senão, não faz nem sentido ter mais uma marca de roupas por aí. Eu quero formar as pessoas para o mercado de moda. Eu quero levar o design de moda para lugares onde as pessoas vivem à margem. Estou caminhando com isso, é pra isso que a Namah nasceu, é onde eu quero chegar.

Como a vocação para a responsabilidade social da Namah se espelha no seu processo produtivo?

Nas roupas, uso principalmente linho e algodão, evitando tecidos sintéticos. A lingerie já não permite isso. Uso rendas e tules, mas toda a modelagem e produção é pensada para ter o mínimo possível de desperdício. Fico horas planejando e mudando o desenho pra ter o máximo de aproveitamento dos materiais. Além disso, todos os descartes são feitos de forma apropriada, principalmente as rendas, que são feitas de poliamida. Dôo todas as sobras para uma empresa que usa para fabricar armações de óculos, para uma marca de roupas customizadas e para um projeto que faz acessórios para doar para o Quênia. Tudo é mensurado, pesado e o descarte é bem consciente.

A preocupação com a mão de obra é a mesma: garantir que as costureiras e todos os envolvidos estejam sendo bem remunerados e trabalhando em boas condições. Faço parte das peças em Friburgo e parte com uma cooperativa de Vigário Geral.

E de onde vêm as ideias para as coleções? Você pensa conceitos por trás delas?

O período de pesquisa, imersão e criação é incrível! Para você tirar de um tecido uma peça pronta e chegar até o momento da foto, das vendas, tem muito trabalho envolvido, um trabalho que eu nem imaginava, fui descobrindo mesmo. Mas tem muito prazer também.

Essa minha coleção, a primeira que tem peças de roupa, é inspirada na Lian, minha modelo e amiga. Falo de uma mulher engajada e livre, que é como a vejo. Tem uma blusa com grafismo de tiras cruzadas, por exemplo, que eu me inspirei numa foto dela numa aldeia indígena, com o rosto pintado.

A próxima coleção que estou desenhando é inspirada em perfumes. No meu processo criativo, penso no tema o tempo todo: tenho prestado atenção nos perfumes que sinto na rua, nas pessoas… Me inspirei num amigo que, diante da minha reação de tristeza diante de umas rosas murchas, me disse que é preciso que elas estejam secas para que delas se extraia o perfume. Achei muito tocante pensar nisso. Espero que dê certo, pode ser que não funcione e eu tenha que escolher outros caminhos.

Qual o maior prazer que você tem em empreender?

Acho o processo de criação prazerosíssimo, mas tem algo que acho mais gostoso ainda: ver uma pessoa feliz por estar usando algo que você fez! Isso, até agora, tem sido o mais legal.

E quais têm sido seus maiores desafios?

Precificar, vender, me expor como pessoa jurídica/ marca. Como fotógrafa, eu fico mais recolhida, atrás da câmera. Ter que chegar numa loja, mostrar meu produto… isso ainda é difícil pra mim. Estou aprendendo bastante com isso, mas não é fácil.

Sobre precificar, eu quero ser muito acessível. Meu sonho é ter coisas incríveis que qualquer salário mínimo compre. Mas vejo no meu dia a dia os custos de se produzir com bons materiais, respeitando os trabalhadores envolvidos e o meio ambiente… e concluo que não é possível, mesmo com margens de lucro pequenas, ser baratíssimo. Por isso mesmo, hoje em dia eu desconfio de quem vende barato demais. Alguém está pagando a conta do baixo custo. Chegam da China contêineres cheios de lingerie e sai muito barato. As pessoas se acostumam com isso, mas o que tem por trás muitas vezes é desolador.

Como você vende seus produtos? O que acha de modelos de negócio colaborativos, como o da Nuv.ooo?

Já faço parte de uma loja onde todos dividem o espaço e compartilham a gestão e todos os trabalhos, que fica na Fábrica Bhering, e estou com meu site quase pronto para vender online. Não vejo sentido em começar uma história, um negócio sem engajamento e as colaborativas, para mim, têm muito a ver com isso: dividir custos, deixar a gestão com quem sabe cuidar, aprender com seus pares, com quem tem mais experiência… O que me ganhou muito na Nuv.ooo foi a representatividade que os artistas e empreendedores têm. Além de ser de uma gentileza imensa com quem cria, é legal o cliente conhecer quem faz.