Quandos o negócio nasce dos seus valores pessoais, cresce e evolui com você, não há outra possibilidade se não empreender com propósito. No caso da Vanzinga, isso passa pela busca por ser cada vez mais uma marca de cosméticos naturais sustentável, considerando desde o ciclo da natureza para a escolha da matéria-prima, até as embalagens. Essa é a maior mensagem que Vanessa Cruz, a aromaterapeuta por trás da Vanzinga, passa nessa entrevista, nos mostrando sua força e a valorização da tradição no conhecimento das ervas, passada por sua mãe e sua avó. Confira:

 

O que você fazia antes da Vanzinga?

Sou paraense, de Belém. Morei no Rio por quatro anos. Nesse período, criei a Vanzinga, e agora estou recém chegada em São Paulo. Antes, sempre trabalhei com Comunicação. No Pará, atuei em projetos sociais, ONGs e na organizações de movimentos sociais, principalmente Movimento Negro do Pará. Também trabalhei com produção audiovisual junto às comunidades indígenas e quilombolas. Me mudei para o Rio trabalhando com rádios comunitárias. Com a Vanzinga, fiz várias formações em cosmetologia natural, maquiagem e me tornei aromaterapeuta, registrada na Associação Brasileira dos Terapeutas Holísticos (Abrath).

Como você começou a empreender?

A Vanzinga é o meu empreendimento mais estruturado. É meu único trabalho hoje, mas sempre aprendi e gostei de fazer muitas coisas: comida, artesanatos, costuras… Ainda morando no Pará, tendo ou não um emprego, sempre tinha alguma outra atividade por prazer ou mesmo para complementar a renda. Vendia bolsas, roupas sob encomenda, já vendi até quentinha vegana e churrasco no Remo e Paysandu, jogo clássico entre os dois times de futebol de Belém. Muitas mulheres negras, principalmente as pobres, têm que saber fazer várias coisas. Temos sempre que “ser as melhores” pra todo mundo, para tentar superar o racismo e o machismo e para a nossa sobrevivência também. Aprendi com as mulheres da minha família que, na falta de emprego, saber fazer “alguma coisa” pode ajudar na renda. Mesmo a Vanzinga, quando surgiu, a ideia era poder reunir o resultado dessas habilidades adquiridas em todos esses anos, era uma loja virtual que tinha um pouco de tudo o que eu sabia fazer: bolsas, turbantes, colares, vestidos, pomadas etc.

Como a Vanzinga surgiu e como se tornou o que é hoje?

Em 2016, já morando no Rio, passei por um período intenso de mudanças, no qual deixei meu trabalho. Isto fez eu me voltar para mim mesma, ir em busca e resgatar quem eu era, de onde eu venho… a Vanzinga surgiu dessa busca. Fui recuperando as coisas que eu gostava de fazer, as atividades manuais, os conhecimentos adquiridos no Pará com mulheres como minha mãe, minhas tias, minha avó e minha bisavó, que era parteira e benzedeira. Ela é uma grande referência para mim, pois foi com ela que aprendi toda a base dos meus conhecimentos de ervas, pomadas e unguentos que utilizo hoje.

Montei a loja virtual que vendia um pouco de tudo que eu sabia e gostava de fazer. Com o tempo, as pessoas foram me procurando cada vez mais por causa dos produtos naturais que eu fazia e acabei focando nisso. Daí vieram os cursos, as formações que fiz para agregar conhecimento ao que já trazia das minhas raízes.

Além disso, a Vanzinga também é um jeito de matar as saudades do Pará, da minha família e dos amigos, da minha casa de santo, onde sou Ekedi, outra grande influência no meu trabalho com conhecimento das ervas tanto no uso cotidiano como ritualístico.

Costumo dizer que a Vanzinga faz parte de um processo de cura e transformação meu, um processo que é constante e diário. É meu jeito de me levar na vida, resgatando e ao mesmo tempo me projetando no futuro enquanto bebo das minhas raízes, da minha memória, lembrando e homenageando as mulheres da minha família e as que marcaram a minha história, o conhecimento natural, a minha ancestralidade.

O que significa Vanzinga?

É a mistura do meu nome, Vanessa, com Nzinga, uma rainha guerreira de Angola. Ganhei esse nome de amigos dos projetos sociais que participava, há quase 20 anos eu o utilizo. Tem tudo a ver comigo, com a minha história. E a Vanzinga é tudo que eu sou: empreendedora, artesã, cuidadora, mulher que se reinventa. Faz muito sentido a marca ter meu nome.

Você produz cosméticos naturais. Como é a escolha dos ingredientes que vão nos produtos?

Minha matéria-prima é sempre a mais natural possível. Respeito a sazonalidade dos produtos, utilizo receitas simples. Não uso produtos de monocultura como palma, soja, carnaúba, que prejudicam tanto trabalhadores envolvidos no cultivo, quanto o meio ambiente. Além disso, a partir do conhecimento que trago da minha história e dos meus estudos como aromaterapeuta, sempre utilizo óleos essenciais e outros ingredientes que tratem não só o físico, mas tenham efeito terapêutico na pessoa como um todo.

Outro detalhe é que, como a Vanzinga tem uma ligação estreita com o feminino, seja na minha ancestralidade, seja na maneira como utilizo os conhecimentos naturais para me expressar, sempre homenageio mulheres ou suas histórias nos meus produtos. A Vanzinga é feminina, ancestral e natural.

A Vanzinga está novamente passando por transformações, muito inovadoras para o mercado brasileiro, por sinal. Que novidades a Vanzinga está trazendo e o que elas têm a ver com a sua história?

Depois de um ano intenso de muita formação, oficinas e cursos, no final de 2018 vim para São Paulo com a minha família e a mudança fez com que eu me deparasse com algo que eu não queria mais, nem para mim nem para o meu trabalho: caixas e caixas de embalagens plásticas que eu utilizava em meus produtos.

Pensei: não faz sentido buscar tudo de melhor que a natureza tem a oferecer para nós e utilizar plásticos que, além de contaminar os produtos, também poluem o planeta. Era hora de repensar a Vanzinga de novo. Parei minhas atividades e passei três meses na Alemanha. Nesse período, pesquisei  muito e me deparei com a cosmética sólida. Aqui no Brasil já temos algumas iniciativas nesse segmento. Gosto muito porque quase não necessita de embalagens e, quando há necessidade, utiliza-se recipientes reaproveitáveis e duráveis, reduzindo ao máximo o lixo gerado no consumo dos cosméticos. Estamos retomando a produção, reformulando alguns produtos e criando novos com essa perspectiva. A cosmética sólida me permite ter mais coerência com o que acredito: além de não usar químicos poluentes, não precisar de embalagens descartáveis.

Desodorantes sólidos, um dos novos produtos da Vanzinga que dispensam embalagens plásticas
Desodorantes sólidos, que dispensam embalagens plásticas. Foto: Kelly Melquíades

Que tipos de produtos você vai oferecer?

Nós já oferecemos sabonetes, xampus e condicionadores sólidos. Para completar a família, vamos ter ainda xampu em pastilha, desodorante e hidratante corporal sólidos e pastilhas dentais, que substituem a pasta de dente. Além de muitas outras novidades, como, por exemplo, nossa linha de maquiagem.

E como estes produtos serão vendidos de forma a dispensar as embalagens plásticas?

A ideia é não gerar lixo, nem desperdiçar recursos, utilizando o que já se tem. O ideal é que a pessoa leve de casa seu recipiente para adquirir nossos produtos, mas vamos oferecer essas embalagens nos pontos de venda para quem esquecer ou para aqueles que ainda estão se adaptando ao novo modelo.

Como tem sido a adaptação aos cosméticos sólidos? Qual sua expectativa para a reação dos seus clientes?

A cosmética sólida ainda não é tão comum, embora vários países já a utilizem com bastante frequência. Porém, se olharmos para a história, vamos identificar vários produtos em barra ou em pó, não é exatamente uma novidade. Os egípcios, por exemplo, usavam perfumes sólidos, em forma de cone. São produtos mais fáceis de transportar, leves, que ocupam menos espaço e não vazam. São perfeitos para viagem, têm durabilidade excelente e rendem muito. O único cuidado é proteger da umidade e do calor. Em casa, eu e minha filha estamos super adaptadas. Dá satisfação e prazer entrar no banheiro e não encontrar embalagens descartáveis. A gente reinventou nosso consumo com mais consciência. Acredito que a aceitação e a adaptação serão tranquilas. Acredito que onde há um propósito, há também uma vontade!

Parte do nosso público é de pessoas que, além de consumidores, são empreendedores também. Para você, qual a maior dor e qual a maior delícia de empreender?

Perfumes sólidos: ingredientes 100% naturais e embalagens reaproveitáveis. (Foto: Kelly Melquíades)

Tenho tanto prazer em fazer a Vanzinga que mesmo as dificuldades eu encaro como desafios. Um desafio é que a cosmética natural artesanal ainda não é regularizada e isso dificulta um pouco, traz uma certa desconfiança. Ainda que o produto convencional e industrializado seja feito com ingredientes nocivos e tóxicos, muita gente ainda dá preferência a eles, me pergunta se o nosso “funciona mesmo”.  Outro é a questão dos valores, fazer o cliente entender que, por trás do preço baixo do produto industrializado tem muitas vezes a exploração de trabalhadores na produção da matéria-prima, elementos tóxicos e poluentes que barateiam o produto a um custo alto para a saúde e o meio ambiente. Na cosmética natural e artesanal, há todo um cuidado de evitar que o trabalhador, a saúde ou a natureza “paguem a conta” do que é supostamente “mais barato”. O impacto positivo para a pessoa e o planeta é muito maior.

Outro desafio constante é administrar o tempo, equilibrar o trabalho e a vida pessoal. Geralmente, a gente gosta muito do que faz e os resultados dependem só da gente. Então acabamos muitas vezes trabalhando demais, sem hora para fazer uma pausa, sem momentos de descanso. Isso vai totalmente contra minha busca por respeitar os ciclos naturais, da qual a própria Vanzinga é fruto e faz parte. É como se houvesse um conflito entre meu lado cuidadora e meu lado empreendedora. Não quero ser uma “indústria de artesanato”. A pausa deste ano também teve a ver com isto, repensar este equilíbrio.

Já a maior delícia é justamente fazer o que você acredita e gosta, do seu jeito. Criar a receita, escolher o cheiro, pensar na pessoa que vai usar esse produto, como ele vai atuar no corpo físico, emocional e vibracional… é um cosmético inteligente: cuida da pele e das emoções.