Tem saudades que a gente carrega e simplesmente vão escrevendo nossa vida toda, influenciando em cada nova escolha. A história da artista Ana Maria Rodrigues com a impressão botânica e o tingimento natural, algumas das técnicas com que trabalha no seu Ateliê Coisa com Coisa, é um pouco assim. Ana por muito anos foi laboratorista fotográfica. Quando o laboratório analógico praticamente se extinguiu como mercado, deixou de passar seus dias entre filmes fotográficos, químicos e cópias em papel e migrou para os computadores e softwares de edição… mas nunca foi a mesma coisa. Foi no encontro com as técnicas naturais que ela reencontrou o que amava na antiga ocupação: a alquimia criativa ao misturar superfícies e reagentes e um fazer introspectivo que, mais uma vez, pedia tempo e contato consigo mesma. O Ateliê Coisa com Coisa é uma das nossas marcas parceiras e você conhece um pouco mais desta história a seguir.

O que fotografia e técnicas de tingimento e impressão naturais tem em comum? Como você chegou de uma às outras?

Eu sou laboratorista fotográfica por formação e daí aconteceu naturalmente de me tornar fotógrafa também. Acho que chegar no Coisa com Coisa foi resultado de uma saudade que eu tenho do laboratório fotográfico analógico, dos filmes e ampliações com que trabalhei por muitos anos. Foi muito difícil quando o laboratório analógico acabou, eu trabalhei com o laboratório digital também, Photoshop e tal, mas era bem diferente. No analógico, eu trabalhava sozinha e tinha muita autonomia. Eu tinha saudades disso e reencontrei tudo na impressão botânica e nos outros trabalhos que eu faço. Eu senti que tinha descoberto algo que tinha a ver com a fotografia, com os processos físicos e químicos, e que me pedia o mesmo tipo de introspecção e exercício criativo. Além do contato com a natureza, claro. Essa possibilidade de lidar com as plantas é uma coisa que também me conforta muito. Fazer meu trabalho a partir delas é minha forma de dizer o quanto elas são importantes, o quanto eu acredito nelas…

E como você chegou nas técnicas que trabalha hoje?

Eu deixei o laboratório digital em 2016. De primeira, comecei a fazer sabonetes de glicerina. Daí fui pesquisando saboaria natural, só que outras técnicas naturais também foram retornando dessas minhas buscas. Foi assim que encontrei e comecei a me dedicar ao tingimento natural, com pigmentos, cascas, folhas e outros, e descobri a impressão botânica. E ambos são exatamente como na fotografia: você vai variando as matérias primas, os reagentes, conseguindo diferentes resultados e ficando apaixonado pelas possibilidades criativas. Hoje, tenho o mesmo prazer de passar dias e dias dentro do meu ateliê como eu tinha dentro do laboratório. E ainda por cima tudo fica perfumado, é delicioso! Quando dei por mim, já estava observando as plantas de outra forma, querendo fazer testes e não queria mais outra coisa, é apaixonante. Daí resolvi recomeçar profissionalmente empreendendo nessa área.

E como surgiu o Ateliê Coisa com Coisa?

Detalhe de cartão artesanal feito em Impressão Botânica e e com negativo fotográfico, do Ateliê Coisa com Coisa: a influência da fotografia é determinante no trabalho da artista
Cartão artesanal em Impressão Botânica e e com negativo fotográfico: a influência da fotografia é determinante no trabalho da artista

Quando eu percebi a diversidade das coisas que eu fazia – fotografia, tingimento, saboaria, impressão natural – eu pensei que eu precisava de um lugar para juntar isso tudo, fisicamente e em termos de marca também. O nome vem de muito tempo. Eu tenho um grupo de amigas que foi muito próximo durante um período e todas faziam alguma coisa manual. A gente pensava em ter uma loja nossa que teria esse nome, mas o grupo se dispersou. Daí, quando eu quis montar meu negócio, avisei para elas e fiquei com o nome para mim. Adoro, o nome e a logo, que eu mesma criei. Sinto que me representam muito bem.

O que o Ateliê oferece?

Faço sabonetes naturais, tenho quatro receitas próprias. Ainda faço os de glicerina também, que foi como tudo começou.  A saboaria é mágica, colorida, cheirosa e tem muitas possibilidades. Faço tingimento natural de tecidos, camisetas, echarpes e estou me dedicando cada vez mais à impressão botânica sobre papel, que é um tipo de impressão que parte de pigmentos e elementos naturais, como folhas, flores, cascas de plantas. Ela tem muitas possibilidades: quadros, cartões e cadernos…

Como é o processo criativo?

É muito lento, mas é muito gostoso! Para fazer um tingimento natural, por exemplo, eu tenho que colher pelo menos um quilo de material natural e depois são dias de fervura dele, dos tecidos, diferentes banhos, secagens, novos banhos, reagentes, fixadores… Só depois disso tudo você vai confeccionar a peça de fato. O processo da impressão botânica é bem parecido.

O sabonete natural também precisa de um tempo para cozinhar naturalmente. Ele é feito no formato de uma barra grande e cortado apenas depois de 12 ou 24 horas depois, dependendo da receita.

Ana Maria Rodrigues, do Ateliê Coisa com Coisa, com uma camiseta de tingimento natural e um dos seus quadros em Impressão Botânica
Ana Maria, do Ateliê Coisa com Coisa, com uma camiseta de tingimento natural e um dos seus quadros em Impressão Botânica

O que te fez ir para a Nuv.ooo?

Eu sempre digo que eu gostaria de não precisar vender meu trabalho. Queria ter alguém que vendesse para mim, porque eu gosto mesmo é de fazer. Mas geralmente a gente tem que fazer, explicar e até educar o público, além de vender nosso produto… e eu não sou uma boa vendedora. Daí na Nuv.ooo, além de encontrar quem fizesse isso por mim, penso que seja um lugar de maior visibilidade, já que representa o trabalho de vários artistas. É meu primeiro ponto de vendas, a marca é nova, ainda estou estudando outras possibilidades. Penso, quem sabe, em ter uma loja um dia. Estar na Nuv.ooo é um bom jeito de experimentar.

O que você quer dizer com “educar o público” na hora da venda?

As pessoas não estão acostumadas a dar valor ao trabalho artesanal. Meu trabalho é artístico e experimental, ele é primeiramente para dar prazer a quem compra. Se a pessoa não entende isso, vai fatalmente comprar da China hoje em dia. Recentemente, dei minha primeira oficina de Impressão Botânica e foi muito interessante ver as pessoas, ao final, falando que, de agora em diante, vão entender o valor de um trabalho artesanal de outra forma, não apenas pelo preço. É isso que eu quero dizer com trabalho educativo, não só nas vivências e oficinas, mas o processo de venda acaba sendo um momento de falar disso tudo e sobre consumir menos e melhor. Toda pessoa que conhece meu sabonete, por exemplo, diz que vai ser difícil comprar um no mercado depois, ela vê a qualidade.

Para você, qual o maior desafio e a cisa mais gostosa de empreender?

Acho que o que eu menos gosto é vender mesmo. Artista é um bicho esquisito, faz as coisas e, se pudesse, nem vendia… ainda mais no meu caso, que são todos peças únicas (risos). Já a coisa mais gostosa é ver o resultado. Faço uma coisa que normalmente as pessoas não querem fazer por que demora e tem muito de experimentação, de aceitar a falta de controle de todas as variáveis. Mas eu tenho a paciência para aguardar os resultados, gosto dos processos demorados. E tem uma quantidade incrível de possibilidades: imagina quantas árvores tem no planeta, quantas plantas… Outra coisa bacana é afetar os outros com seu trabalho, seu olhar, seu pensamento… afetar o outro é a resposta que a gente espera, seja um pastor num culto, um professor, um artesão. Essa é a grande expectativa. Bom ou ruim eu quero é saber como eu afetei o outro. É muito incrível estar o tempo todo em contato com a natureza e as pessoas.