Tão importante quanto ter um bom produto é ter um posicionamento claro. No caso da Cervejaria De Janeiro, este posicionamento é a favor da cultura cultura carioca, e sobretudo da  periferia, origem de boa parte dos sócios, como parte integrante da cidade, da diversidade, da igualdade. Recebemos quatro dos seis rapazes à frente da marca para um bate papo sobre cerveja artesanal, cultura carioca e como uma marca pode entregar muito mais que uma bebida gostosa e refrescante. Por que eles sonham alto: querem viver de cerveja profissionalmente, mas também incentivar que mais pessoas possam ter acesso a produzir suas bebidas, principalmente fora das áreas nobres. “Nos rincões do Brasil o pessoal faz cachaça, o Sul faz seu vinho, porque não pode ser igual com a cerveja?”, questionam. Leia a seguir um pouco sobre a De Janeiro e as tantas ideias que eles tem colocado em ação.

Uma cerveja que traz uma cidade no nome. O que ela tem de diferente?

João: desde o início, queríamos um posicionamento que falasse com pessoas, com a cidade. Eu na época morava em Realengo, na Zona Oeste, completamente fora do circuito turístico, onde as crianças ainda soltam pipa, tem churrasco de vizinhos na calçada e um clima bom de subúrbio. A galera quando ia para lá brincava que eu não morava no Rio, morava no De Janeiro (risos). Acabou que percebemos que essa brincadeira traduzia este espírito que a gente queria: uma cerveja que atravessa e liga a cidade toda, que vai da Zona Sul à Zona Oeste, que apresenta e representa a cultura carioca. Fizemos muitos encontros para construir a marca… e beber juntos, claro (risos). Assinamos o contrato social em 2016 e começamos a operar em 2017. Foi o tempo certo de amadurecer esse posicionamento, as receitas, a concepção das ideias.

Então a ideia é unir a cidade e incluir seus aspectos. Como isso se traduz em bebida?

João: nosso primeiro rótulo foi a Rebouças justamente por causa do nome do túnel que liga as partes sul e norte da cidade. E é também em homenagem ao André Rebouças, engenheiro negro e abolicionista que lhe dá o nome. Muita gente circula pelo túnel todos os dias e nem imagina sua história, que o nosso rótulo conta um pouco.

Junior: a gente queria trazer esse simbolismo não só de descobrir um lado do Rio pouco valorizado, seja no engenheiro negro desconhecido da maioria ou na metáfora do túnel que une a parte nobre e as praias aos outros bairros.

João: o nosso propósito desde o início é ajudar a jogar um pouco mais de luz numa área da cidade que é de onde a gente vem e de onde a gente gosta e se sente bem, falar de subúrbio sem estereótipos e falar isso com cerveja e pela cerveja. Temos planos de incentivar o hobbie da cerveja artesanal nessas áreas também.

Falem um pouco mais dessa ideia de disseminar a produção artesanal de cerveja. Como isso seria possível?

João: a gente acredita que consumir e até mesmo fabricar cerveja artesanal não é algo que precisa ficar confinado às áreas mais ricas da cidade. Fazer cerveja dá trabalho, mas é um trabalho gostoso e dá um fruto que é algo que todo mundo gosta. Nos rincões do Brasil o pessoal faz cachaça, o Sul faz seu vinho, porque não pode ser igual com a cerveja?

Leonardo: uma máquina de café espresso, por exemplo, é algo refinado, que depende de cápsulas… tudo bem, mas não precisa dessa tecnologia toda para fazer um café. Com a cerveja a mesma coisa: é possível focar no processo, chamar os amigos, fazer junto, criar um momento de interação. É muito prazeroso e pode facilmente virar um hábito, uma celebração. Imaginamos que é possível uma família fazendo junta sua cerveja para suas datas comemorativas e tal…

Vocês já têm alguma iniciativa neste sentido?

Bruno: nosso objetivo não é só ter ponto de venda na Zona Norte e Oeste, o que a gente já tem e vários. A gente tem a Vida Real, que é a festa da De Janeiro. Fizemos nossa primeira edição no Méier. O objetivo dela é aproximar a cultura cervejeira do cotidiano das pessoas. Teve roda de samba, comida de rua, DJ com músicas populares, veio pessoa da Baixada, Zona Oeste, uma galera que também quer ter visibilidade e que comprou nossa ideia.

Junior: esta atual “onda da cerveja artesanal”, por assim dizer, tem muito a ver com o momento que estamos vivendo de empoderamento das pessoas com informação, disseminação da internet e tal. E isso também tem a ver com empoderamento. Até há pouco tempo a gente era refém de poucas opções. As pessoas agora conhecem a história por trás do fazer cervejeiro, as possibilidades culturais, de sabores e os momento que ela propicia. A roda de amigos num pé sujo representa não só a cerveja, mas muitos valores que estão ali. Isso também está presente na produção artesanal.

Quantos Rótulos a De Janeiro tem?

Junior: temos a Rebouças, que é a primeira, uma IPA, e a Rebouças de Leve, que é uma Session IPA. Tem ainda a Bonde, que é de trigo, uma American Wheat e a Passinho, nossa Sour de hibisco com gengibre. Por fim, tem a Pessoa Amada, estilo New England Ipa, com adição de manga. Vale ressaltar que nossos rótulos sempre brincam com a história e a cultura da cidade: Pessoa Amada, por exemplo, faz referência à frase que se encontra em tantos postes, “trago a pessoa amada”. A Passinho se refere ao passinho do funk, patrimônio imaterial do Rio. Bonde é um meio de transporte histórico da cidade e também quer dizer galera, movimento, turma e Rebouças, como falamos, é o Engenheiro negro e o túnel que une a Zona Norte à Zona Sul. 

E em termos de ingredientes?

Bruno: Entre os nossos ingredientes principais está malte brasileiro, que aliás tem crescido muito, em qualidade e variedade, junto com a cervejaria artesanal nacional. A cerveja boa é uma cerveja fresca, então é muito importante para quem curte cerveja de verdade esse crescimento do mercado produtor nacional. E isso empolga muito a gente a criar, nossa ideia é estar sempre inovando e inventando. Existe uma referência formal no universo cervejeiro que é a tabela da BJCP (Beer Judge Certification Program), uma espécie de “tabela periódica” das cervejas, que classifica famílias e tipos. A gente sabe da importância dela, mas acredita que a cerveja, antes de tudo, tem que ser simples e gostosa de beber. Se a gente provar e aprovar, a gente manda para a produção, mesmo que um sommelier diga que está fora do estilo.

João: quando você entre no universo da cerveja, acaba indo muito pelo conhecimento formal, provando todo tipo de cerveja gringa… mas chega um momento que, morando numa cidade que faz 40 graus no verão, não quer mais só uma cerveja cara e que é tão forte quanto whisky, que não dá pra beber aos montes, pra refrescar mesmo, que é o que o nosso clima pede.

Leonardo: e assim nosso mercado vai crescendo, não é não provar as outras, mas as pessoas acabam pedindo uma cerveja que converse com o clima local. A gente tem ido por este caminho.

Como é o processo de produção de vocês?

Pessoa Amada, a cerveja Juicy IPA com manga mais perfumada que você pode imaginar
Pessoa Amada, a cerveja Juicy IPA com manga mais perfumada que você pode imaginar

Bruno: a gente faz um piloto e busca referendar ele entre os sócios, os amigos e o nosso público. Feito isto, mandamos para a fábrica, para produção em larga escala. Um de nós sempre acompanha a produção pessoalmente, tanto no dia da fabricação quanto em etapas posteriores. E todos os detalhes que a fábrica executa são pré-determinados por nós, a especificação é toda nossa.

Já erraram na hora de escalar uma receita que haviam testado em casa?

Bruno: Já, mas digamos que foi um erro providencial. A Rebouças de Leve foi fruto de um erro. Teve uma ineficiência na moagem e ela saiu um pouco mais leve, mas a gente acabou gostando e virou um rótulo novo. A fabricação é um momento muito sério. Imagina o que seria perder milhares de litros de cerveja…

Vocês são seis sócios, como se conheceram?

Bruno: nosso ponto comum foi o Eliéser, que era amigo dos outros três sócios iniciais, eu, o João e o Paulo.

João: acho que a coisa começou a acontecer em 2012 no Lapa Café, que é um bar importante na cultura cervejeira do Rio. Eles promoviam degustações e vários eventos educativos. A gente “batia ponto” lá com o Eliéser e a partir desses encontros fomos estreitando a nossa relação em almoços, festas, viagens… daí até chegar na De Janeiro foram muitos caminhos, mas a gente sempre quis fazer algo juntos.

Bruno: e em 2018 chegaram o Junior, que eu conheci no curso de mestre cervejeiro, e o Leonardo, que é primo do Paulo.

E qual o papel de cada um na De Janeiro?

Júnior: O Eliézar é uma espécie de CEO, ele que organiza tudo. O Paulo faz o marketing. O Bruno é nosso mestre cervejeiro oficial, o homem das receitas… não que todos nós não nos metamos nesta parte das receitas (risos). João é advogado, cuida do financeiro, das burocracias e do operacional. Eu e Léo cuidamos dos eventos. Essas são as funções mais oficiais, mas todos nós “jogamos nas onze”, fazemos um pouco de tudo quando é preciso. Onde tem tarefa, estamos lá.

Vocês trabalham apenas na De Janeiro ou tem outros empregos?

Junior: a cerveja, para nós, ainda é um hobby caro que estamos tentando profissionalizar. Por enquanto todos nós ainda temos outra profissão. Mas todos temos este sonho, que é viver só da cerveja.

Bruno: mas de forma realista e com o pé no chão. O mercado brasileiro não é fácil, ainda mais nesse momento. Tem muita gente boa que está parada, esperando o mercado reagir, ou morreu mesmo, deixou de tentar. A gente acredita no mercado e aposta em inovação.

Falando em mercado, qual a maior dor e a maior delícia de empreender?

Leonardo: acho que a melhor parte é o contato com o público, o feedback do seu trabalho, quando a pessoa diz “poxa, tá muito bom!”

Junior: é, quando a gente faz eventos tem muito trabalho e quase não tem retorno, mas ver as pessoas interagindo com a marca, usando nossa camiseta, curtindo nossos produtos, o que a gente acredita… isso é muito recompensador.

João: já a maior dor, na verdade, são muitas (risos). Cliente inadimplente, lidar com alguns fornecedores de quem a gente depende para entregar o melhor produto e às vezes deixam a desejar… mas a gente vai aprendendo, faz parte.

Bruno: tem várias dificuldades, mas como nenhum de nós pode ainda ter a De Janeiro como nossa única ocupação, acho que a maior dor mesmo é ainda não poder mergulhar só nela, doar mais horas para este trabalho.

Júnior: sempre que a gente se entrega o resultado vem e dá aquela dorzinha de pensar “puxa, se a gente pudesse fazer mais pela marca, quanto mais a gente teria de retorno?”

Vocês vendem os rótulo em feiras, eventos e bares. A Nuv.ooo é a primeira experiência compartilhada de vocês? O que atraiu vocês neste modelo?

João: sim, é nossa primeira experiência do tipo. A possibilidade da gente vender para todo o Brasil, por meio do marketplace da Nuv.ooo, atraiu muito a gente. É um jeito da gente ampliar nosso alcance, a gente tem um público grande de outros estados.

Junior: também que nós gostamos de testar o que é fora do óbvio, tem muito a ver com a nossa marca. Provavelmente quem vai à Nuv.ooo não está procurando necessariamente uma cerveja, mas se ela encontra nosso produto lá, bem exposto e tal, talvez seja um tipo de cliente que a gente também não ganharia num lugar em que expomos com outras centenas de marcas de cerveja. É interessante testar esses novos canais.

Junior, Cesar, Bruno e João: quatro dos seis sócios da Cervejaria de Janeiro
Junior, Cesar, Bruno e João: quatro dos seis sócios da Cervejaria De Janeiro