Vitor Marques Borges é um publicitário bom de desenho e criação, mas o que o define mesmo é ser mineiro de Campanha, cidadezinha encravada no sul de Minas Gerais. “Mineiro raiz, criado em uma cidade pequena, acostumado com animais, terra e árvores”, como ele mesmo se apresenta. Fã do Clube da Esquina, de causos e prosas, ele criou a Cascafina, marca de camisetas e objetos que transbordam mineiridade para mineiros de nascimento e de coração, do estado e de todo lugar, com design e criatividade. E como não amar Minas Gerais?

Então vem ler esse “dedim de prosa”, que tá bom demais da conta!

Que ocupações você já teve antes da Cascafina?

Vitor Borges, publicitário e criador da Cascafina
Vitor Borges, publicitário e criador da Cascafina

Meu primeiro emprego foi com meu pai. Ele é sitiante, cria porcos e tem um açougue. Aliás, faz a melhor linguiça de porco do mundo! Lá pela 5ª série, eu ficava vigiando o açougue por alguns minutos, enquanto ele ia ao banco. Com o tempo, passei a ficar mais horas, até assumir o período da tarde. Depois trabalhei com um tio, numa fabriqueta de silk. Durante o tempo em que eu e meu primo ficávamos com ele, ouvíamos rock nacional, MPB… Dessa fabriqueta, trouxe o gosto pela música brasileira e a curiosidade pelo silk.

Depois de terminar a escola e sem a menor ideia do que fazer, decidi tirar um ano sabático e meu pai achou que o tal sabático pudesse ser vivido na chácara, trabalhando na criação. Ajudei meu pai com porcos, plantando e colhendo na nossa horta orgânica. Trabalho braçal, honesto, do campo. Foi uma época muito boa da minha vida, aprendi a dar valor no trabalho do meu pai…aprendi a entendê-lo melhor.

Comecei a estudar Publicidade, estagiei, formei, trabalhei em Poços de Caldas e depois Alfenas, onde ainda vivo e onde hoje fica a loja física da Cascafina.

E por que você decidiu empreender?

Eu estava há quase três anos na mesma empresa. Não havia motivos para reclamar, mas no meu último ano lá já comecei a me sentir infeliz. Entrei de férias e quando voltei todos do meu departamento tinham sido demitidos, o que me aconteceu naquele mesmo dia. Saí com vontade de fazer algo diferente, mas eu ainda não sabia o quê. Nisso, me lembrei de um convite que um amigo havia me feito: estampar as ilustrações que eu postava no Facebook.

Entrei em contato com o Harrison Pereira, o tal amigo, que topou a ideia na hora. Decidimos criar alguma marca, alguma linha de camisetas com desenhos que eu criasse. Mas não tínhamos base nenhuma. Noção de nada. Só sabíamos de uma coisa: os desenhos deveriam representar algum sentimento, algo maior e a gente teria de acreditar/vestir a camisa (literalmente) daquelas estampas que iríamos fazer.

Comecei em um novo emprego e, paralelamente, continuamos as conversas. Algumas poucas semanas depois, ficamos sabendo do lançamento da Incubadora da Universidade Federal de Alfenas (Unifal). Nesse meio tempo, decidimos que abordaríamos a temática mineira em nossa coleção, já que era um assunto que a gente entendia e se interessava. Fomos aprovados na seleção da Unifal em agosto de 2014 e foi aí que tudo mudou. Sete meses depois, fui demitido de novo e a empresa ainda não caminhava sozinha, mas tive uma certeza: não voltaria a trabalhar para mais ninguém a partir de 2015. Faria a ideia da Cascafina acontecer e lançaria o quanto antes a empresa no mercado.

Então a Cascafina foi fruto de busca por autonomia e propósito?

Clube da Esquina e outras referências mineiras são a inspiração das camisetas da Cascafina
Clube da Esquina e outras referências mineiras são a inspiração das camisetas da Cascafina

Exato. A ideia da Cascafina veio de uma necessidade em fazer algo próprio, sem depender de ninguém, que gerasse renda e nos inspirasse no dia a dia. A gente tinha que trabalhar com algo que fizesse sentido para nós e para tantas outras pessoas. Nossos produtos tinham que trazer verdade. E para transmitir essa verdade, encontramos em Minas a temática perfeita. Eu sou mineiro raiz, criado em uma cidade pequena, acostumado com animais, terra, árvores. Amo o Clube da Esquina, os causos e as histórias das nossas cidades. Gosto muito das tradições e, assim como eu, há quantidade enorme de pessoas que se identificam com este sentimento. Ao criar a Cascafina, me propus a falar com essas pessoas, para despertar ou reforçar o sentimento de pertencimento, de mineiridade em cada uma delas. Ao mesmo tempo em que a Cascafina foi criada com essa missão, houve o fator mercadológico importante e também fundamental para a definição da temática Minas Gerais. Havia espaço no mercado para o nascimento de uma marca como essa.

De onde vem o nome Cascafina?

Vem de uma analogia com a palavra “casca”. Uma camiseta nada mais é do que uma casca. Ela te veste, te protege e te deixa mais garboso.  Assim como a casca de qualquer fruta ou árvore, por exemplo. E ainda divulga uma ideia. Só que a gente achava a palavra sozinha muito simples e, de certa forma, seca. Foi assim que surgiu a “Cascafina”, que mantém a ideia e significado original de “casca”, mas forma uma palavra única, contrária a expressão “casca grossa”, que serve para definir o sujeito duro, tosco, rude, bruto.  Cascafina é quase um adjetivo para pessoas do bem, amantes da cultura mineira e dos ares das Gerais.

O que e quais são os seus produtos?

A gente considera que toda estampa é um novo produto. E como queremos traduzir Minas Gerais para

Tem coisa mais mineira que um café?
Tem coisa mais mineira que um café?

mineiros da terra ou de coração, buscamos ser criativos e mais universais em nossas criações. Por isso, nada de simplesmente estampar a bandeira do estado na camiseta. Por mais linda que ela seja, nosso propósito é deixar tudo que refere-se a Minas Gerais ainda mais bonito. Primeiro, pesquisamos letras de músicas, poesias, crônicas ou contos que traduzem esse tal de espírito mineiro. Fazemos uma triagem sobre aquilo que é mais autêntico e ao mesmo tempo comercial e só aí vamos para a criação da arte.  

A ideia é que possamos lançar de quatro a seis estampas em um período de dois meses, para validar as que tiveram mais aceitação e investir em peças que realmente tenham circulação.

Como é a produção na Cascafina?

Hoje em dia, fico por conta de criar o conceito e o layout de cada estampa, mas a produção em si é toda terceirizada. Trabalhamos com as melhores malharias do mercado e com tecidos 100% algodão. Nossas peças apresentam uma estampa em silk com tinta a base d’água, que permite total fidelidade ao desenho criado e uma durabilidade enorme. Mas isso é o básico do mercado e o nosso diferencial está nos detalhes. As etiquetas internas, que indicam a modelagem e tamanho das peças, celebram as cachoeiras e campos mineiros, de acordo com cada modelo (masculino ou feminino) e dentro de cada peça há o nosso Manifesto Mineiro, nosso amor por Minas traduzido em palavras e versos. O cliente compra uma camiseta e leva junto uma ideia.

As estampas também são dispostas em canecas e azulejos e, logo mais, lançaremos a linha de porta copos. Os azulejos, aliás, foram uma grata surpresa. Eles saem mais do que as canecas. Consideramos um produto exclusivo nosso, já que outros concorrentes não produzem peças similares (mas produzem camisetas e canecas).

Qual a maior delícia de empreender?

Hoje em dia, não me vejo trabalhando para outras empresas, cumprindo obrigação de carga horária, ponto, horário comercial… Embora trabalhe sim para meus clientes e mantenha uma rotina muito mais longa do que antes, é diferente. Eu tenho a liberdade de fazer ou não, de decidir e, principalmente, eu sei como as coisas estão. Eu sei aonde quero chegar e sei o caminho que trilhei.

Nesses quase quatro anos de vida de empreendedor, eu cheguei à seguinte conclusão: empreender é saber lidar com o medo. Eu vivo com um medo constante dentro de mim, mas é um “medo bom”, um estado de alerta. Ele me impede de sair desenvolvendo mil e um projetos dentro da Cascafina sem me preocupar se eles darão ou não certo. Porém, se esse medo for muito grande, ele me impede de dar passos maiores, ainda que calculados. Então eu procuro equilibrar e entender esse sentimento, analisar o histórico da própria empresa e o cenário ao redor. Eu sempre olho um ano para trás e me faço a pergunta: Como eu estava mesmo nessa época do ano passado? E como eu estou agora? Essa análise é vital para que a gente enxergue as coisas de maneira real e faça planos futuros.

E qual a maior dor de empreender?

Como eu sou de humanas, tenho uma dificuldade absurda com planilhas, notas, financeiro. É horrível admitir isso para uma empresa, mas é a verdade. Eu sou uma negação. Essa parte até tem entrado nos eixos agora, mas ainda tenho um trabalho pela frente.

Como pessoa criativa, também tenho certa dificuldade com rotina x produtividade. Tem dias que simplesmente não sai nada. E nesses dias eu costumo ficar bastante apático. O que me ajuda muito nisso é que a rotina de trabalho da Casca não se resume apenas à criação: tenho que  atender clientes na loja, no site, falar com representantes, fornecedores, ou seja, resolver problemas de ordem prática. Assim procuro equilibrar as pendências criativas com as mais operacionais. Não é fácil. Tem dia que nada rende. Mas é o que é.

Além da criação das peças, você tem outros talentos?

Me coloque para vender uma peça qualquer da Cascafina, me coloque diante de uma pessoa que nunca sequer ouviu falar da gente ou do Clube da Esquina! Eu te garanto que essa pessoa vai sair com ao menos uma sacola de produtos, um playlist pra ouvir em casa, tudo depois de um bom dedo de prosa. Sou o melhor vendedor do mundo dos produtos Cascafina! Adoro participar de eventos onde há movimento intenso, adoro contar a história dos produtos, conversar com os clientes, ouvir histórias, opiniões. E mineiro, você sabe né? Tem sempre um palpite para tudo.

Fora que ver pessoas desconhecidas vestindo a camiseta da Casca dá um orgulho danado. É um tipo de felicidade que dinheiro nenhum compra. Nesses momentos eu olho para trás, vejo os perrengues que passei e penso: valeu a pena demais da conta.

Você já teve experiência em loja física? E em feiras? O que foi positivo e negativo em cada uma?

Temos quase um ano de loja física inaugurada.  Nós estamos em uma rua central, na entrada da cidade de Alfenas, a três quarteirões da praça principal. É uma loja pequena e aconchegante, com a cara da Casca. Tem um cantinho de café e música brasileira rolando sempre, além de um espaço onde trabalho, como escritório. Nesses quase doze meses de operação, vivi as felicidades e angústias de todo comércio. Dias produtivos, de muito movimento e dias super parados. Mas o saldo geral é super positivo. A loja trouxe um novo público e já fidelizou vários clientes, aumentou nosso fluxo de vendas e a nossa responsabilidade. Agora, preciso pensar em mais lançamentos com mais frequência. 

Já a participação em eventos faz parte da nossa rotina desde o começo da empresa. Fomos descobrindo quais são e quais não são interessantes para nós. Hoje participamos de poucos, mas sabemos escolher melhor. Uma grande parceria nossa é o HackTown, um evento de tecnologia, empreendedorismo e cultura que acontece aqui no sul de Minas, na cidade de Santa Rita do Sapucaí. É um evento relativamente novo, está na 5ª edição, mas reúne gente do Brasil inteiro. Somos os responsáveis pelos produtos oficiais do evento, além de vendermos também os nossos próprios. 

Você já tem experiência com lojas como a Nuv.ooo?

Nunca expusemos nossos produtos em lojas compartilhadas, só nas tradicionais. A Nuv.ooo está sendo a primeira! Mas acho o modelo de loja compartilhada uma ótima saída. A economia colaborativa está em alta e não é só mais uma tendência passageira. Acredito que a soma de pessoas, ideias e produtos pode ser benéfica para todo mundo.

Eu não conhecia vocês até entrarem em contato comigo, no início do ano. Fiquei muito feliz com o interesse na Cascafina, porque isso validou mais uma vez o espaço que estamos ganhando. Mesmo sem perceber, a marca tem chegado a muitos lugares. E quem nos apresentou para vocês foram os nossos próprios clientes. Quer melhor maneira de validar seu produto? Ao conhecer a proposta e a marca Nuv.ooo, fiquei ainda mais feliz. Primeiro, pela ideia do compartilhamento e também porque achei tudo de muito, mas muito bom gosto mesmo. Não vejo a hora de ver a nossa parceria alcançando vôos cada vez mais altos.